A Previc publicou em julho o Relatório 2025 da Previdência Complementar Fechada.
O documento apresenta um setor maior, mais rentável e atuarialmente mais equilibrado do que no ano anterior.
Essa é a primeira leitura — e está correta.
A segunda começa com uma pergunta: quanto desse desempenho o participante consegue compreender, contextualizar e relacionar com o próprio futuro?
Porque resultados financeiros não produzem confiança automaticamente. Entre o número apurado pela entidade e o valor percebido pelas pessoas existe uma etapa que ainda recebe menos atenção do que deveria: a comunicação.
Um ano que merece contexto, não apenas celebração
O Regime de Previdência Complementar Fechada encerrou 2025 com R$ 1,408 trilhão em ativos. Foram R$ 103,8 bilhões acrescentados ao patrimônio em doze meses, o maior incremento nominal já registrado pelo setor.
A rentabilidade consolidada alcançou 13,33%, diante de um benchmark de 8,96% — IPCA + 4,5% ao ano. Foi o segundo maior excedente sobre essa referência desde 2010, atrás apenas de 2019.
Todas as modalidades superaram o benchmark: 14,29% nos planos CD, 13,89% nos CV e 12,75% nos BD.
O resultado atuarial também mudou de sinal. O déficit líquido de R$ 8,9 bilhões registrado em 2024 deu lugar a um superávit consolidado de R$ 17,69 bilhões. Apenas 155 planos terminaram o ano deficitários, o menor número da série apresentada pela Previc.
Ao todo, o sistema alcança 8,68 milhões de pessoas entre participantes ativos, aposentados, pensionistas e designados.
Os números são fortes. Mas sua força depende da comparação que chega ao participante.
O paradoxo de um resultado forte
Em 2025, enquanto o sistema rendia 13,33%, o Ibovespa avançou 33,95%, segundo a B3.
É uma comparação sedutora — e inadequada.
O próprio relatório mostra que 85% dos ativos financeiros das EFPC estavam alocados em renda fixa. O Ibovespa representa uma carteira de renda variável, com risco, volatilidade e finalidade diferentes dos de uma carteira previdenciária.
Uma referência mais próxima é o IMA-B 5+, índice de títulos públicos indexados à inflação e de prazo mais longo. Ele rendeu aproximadamente 14,2% no ano, resultado bastante próximo ao do sistema.
Mas essa explicação não chega sozinha às pessoas.
Sem contexto, 13,33% pode parecer pouco diante dos 33,95% vistos no noticiário. Com contexto, o mesmo número revela uma carteira previdenciária que superou sua referência e entregou desempenho compatível com a estrutura de longo prazo dos planos.
Disponibilizar não é comunicar
As EFPC produzem relatórios, demonstrativos, extratos e documentos tecnicamente completos. Isso não significa que tenham construído entendimento.
Em estudo sobre educação previdenciária, a própria Previc observou que disponibilizar informações é necessário, mas insuficiente. Na pesquisa realizada com 205 entidades respondentes, somente 33% declararam monitorar ativamente a renda projetada dos participantes. Considerando apenas o acompanhamento efetivo ao longo da fase contributiva, eram 57 entidades.
O mesmo estudo coloca a comunicação direta, a transparência e os processos digitais entre os elementos fundamentais para o funcionamento das organizações. Também recomenda a divulgação ativa de rentabilidade, riscos, estratégias de investimento e projeções de benefícios. Embora o levantamento seja de 2021, o diagnóstico continua relevante como referência setorial. Consulte o estudo da Previc.
Publicar um relatório atende à transparência formal. Construir uma narrativa que o participante consiga usar é outra entrega.
Três números, três perguntas estratégicas
Em 2025, as EFPC arrecadaram R$ 65 bilhões em contribuições e pagaram aproximadamente R$ 104 bilhões em benefícios.
Isso não significa que o sistema esteja deficitário. Pagar benefícios é a finalidade para a qual as reservas foram formadas, e planos maduros naturalmente entram em fase de desacumulação.
O dado, porém, evidencia que o setor reúne planos em momentos muito diferentes de seu ciclo de vida. Ele aumenta a importância de explicar liquidez, maturidade, acumulação e horizonte previdenciário sem transformar conceitos distintos em uma única conta.
Também lembra que crescimento, renovação da base e adequação contributiva não acontecem por inércia. Especialmente nos planos CD e CV, adesão, permanência e nível de contribuição precisam ser trabalhados ao longo de toda a relação.
Metade do alcance protetivo está além do titular.
Dos 8,68 milhões de pessoas alcançadas pelo sistema, 4,45 milhões aparecem como designados. Eles não devem ser tratados automaticamente como uma base comercial disponível.
O que o número revela é mais importante: a previdência complementar não protege apenas uma conta individual. Ela protege relações familiares, dependentes e projetos de vida que ultrapassam o participante titular.
Quando a comunicação se limita à rentabilidade da reserva, deixa invisível parte relevante do valor previdenciário.
O setor passou de 278 para 268 entidades.
Entre 2022 e 2025, o número de EFPC caiu de 278 para 268. A Previc associa esse movimento a reorganizações societárias, incorporações, fusões e transferências de gerenciamento em busca de escala e eficiência.
Comunicação não explica, sozinha, a consolidação do setor.
Mas, em um ambiente no qual escala, eficiência e sustentabilidade institucional estão permanentemente em discussão, a capacidade de demonstrar valor a participantes e patrocinadores deixa de ser um assunto lateral. Ela passa a compor o capital estratégico da entidade.
A adesão pode ser automática. A confiança, não.
Os planos CD já representam 46,7% dos planos do sistema. Neles, 51% da população é formada por participantes ativos e apenas 2% por aposentados.
Essa base está majoritariamente em fase de acumulação. Também está mais exposta a decisões individuais sobre contribuição, permanência e, quando disponíveis, perfis de investimento e formas de recebimento.
A ampliação da inscrição automática pode reduzir a primeira barreira de entrada. Desde 2025, a regulamentação passou a admitir, em determinadas condições, processos coletivos para trabalhadores já vinculados ao patrocinador e a inscrição automática em planos instituídos. O Ministério da Previdência detalha as regras neste guia.
A norma pode facilitar a adesão. Não pode produzir, por decreto, compreensão, contribuição adequada ou permanência.
É nesse intervalo que a comunicação atua.
Nos planos que dependem cada vez mais das decisões do indivíduo, marketing não é propaganda institucional. É arquitetura de escolha, percepção de valor e relacionamento de longo prazo.
O ano bom é quando a confiança começa a ser construída
Depois de um 2024 abaixo do benchmark, 2025 entregou uma recuperação expressiva. O contraste entre os dois anos é, por si só, material de educação previdenciária.
A entidade que explica tanto a queda quanto a recuperação oferece ao participante uma narrativa coerente sobre risco, prazo e estratégia. A que se manifesta apenas para publicar documentos obrigatórios deixa cada pessoa construir sua própria interpretação — frequentemente a partir de referências inadequadas.
Essa preocupação já aparece na agenda institucional. Em fevereiro de 2026, a Comissão de Fomento da Previc incluiu entre as prioridades melhorar a comunicação, ampliar a transparência e oferecer uma experiência melhor a participantes e assistidos. Veja o registro da Previc.
O desafio, portanto, não é encontrar números positivos para divulgar. Eles já existem.
É transformá-los em entendimento.
Do desempenho à percepção de valor
Os resultados de 2025 podem ser apresentados como uma sequência de tabelas. Também podem organizar uma conversa mais ampla sobre segurança, horizonte de longo prazo, proteção familiar e qualidade da gestão.
A diferença está no método: definir o que cada público precisa compreender, qual comparação precisa ser antecipada e que decisão a comunicação pretende apoiar.
É esse trabalho que desenvolvemos com EFPCs.